Lucas Marchesini

17/10/2021 12:00

Acompanhar a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia de Covid-19, nos últimos seis meses, tornou-se um esporte nacional. O público bateu ponto, de terça a quinta-feira, a partir das 9h, para assistir aos debates realizados no Senado Federal.

O último depoimento aos parlamentares acontece nesta segunda-feira (18/10) e, no dia seguinte, Renan Calheiros (MDB-AL) entregará o relatório final. O emedebista deverá propor o indiciamento de Jair Bolsonaro (sem partido), de três filhos do presidente e de mais de 30 pessoas, por pelo menos 16 crimes cometidos durante a pandemia.

Para concluir o trabalho investigativo, os parlamentares realizaram 65 sessões, no período de 27 de abril a 15 de outubro. Todas as reuniões do colegiado foram esmiuçadas pelo (M)Dados, núcleo de análise de grande volume de informações do Metrópoles, mediante o uso da linguagem de programação Python. O resultado vem a seguir.

MarcosPalavras mais faladas

A lista dos termos mais usados pelos integrantes do colegiado pode enganar. Os dois vocábulos mais recorrentes dão impressão de que reina um clima de camaradagem e respeito entre os parlamentares. A palavra mais utilizada foi “senhor”, com 35.023 menções, seguida por “senador”, com 22.857. “Presidente” vem em terceiro, com 16.730 ocorrências.

Nem parece que foi lá que o senador Flávio Bolsonaro (Patriotas-RJ) chamou Calheiros de “vagabundo” (três menções, ao todo). O alagoano rebateu com um “moleque” (no total de 22 ocorrências). Nenhum dos dois xingamentos consta entre as palavras mais proferidas na CPI.

Pelo menos no colegiado, a imunização da população está em alta. A palavra “vacina” e o verbo “vacinar” já foram ouvidos 9.004 vezes nas sessões da comissão, motivo pelo qual os termos constam em 8º lugar. É muito mais do que “cloroquina”, que apareceu em 1.253 oportunidades e ocupa a 208ª posição no rol. A seguir, a lista com os 100 termos mais utilizados. Vale ressaltar que a equipe de reportagem eliminou palavras que não têm sentido específico quando analisadas separadamente, como “mas” e “ou”.

100 Palavras mais faladas

Jair Bolsonaro

O objetivo da CPI é avaliar os erros e as omissões do governo federal no enfrentamento da pandemia de Covid-19 no Brasil. Apesar disso, as menções nominais ao presidente Jair Bolsonaro não são tão frequentes: o levantamento registrou 240 ocorrências, ao todo. Os parlamentares que mais citaram o comandante do Executivo federal foram os senadores Rogério Carvalho (PT-SE) e Randolfe Rodrigues (Rede-AP), que se referiram ao mandatário por, respectivamente, 66 e 55 vezes cada.

Confira, a seguir, o ranking completo. Para elaborá-lo, o Metrópoles buscou menções a “Jair Bolsonaro”.

Menções ao presidente
Jair Bolsonaro

Renan CalheirosVacina x Cloroquina

Conforme visto acima, pelo menos na CPI a vacina apresenta vantagem expressiva em comparação à cloroquina – opção de tratamento que, apesar de ineficaz, foi adotada pelo governo federal.

Em termos relativos, o senador Marcos do Val (Podemos-ES) foi o congressista que mais mencionou o remédio para combater a malária: foram 43 citações, o que equivale a 0,22% de todas as palavras que ele pronunciou. O senador Luis Carlos Heinze está em sexto lugar no ranking relativo, com 0,17% do total. Em números absolutos, ele foi o segundo que mais falou do remédio, com 138 ocorrências.

Menções Cloroquina

Em relação às citações a “vacina” e “vacinar”, a campeã é a senadora Rose de Freitas (MDB). A parlamentar mencionou o termo 10 vezes, em 684 palavras utilizadas (ou 1,5% de suas considerações). Curiosamente, o senador Heinze falou mais sobre os imunizantes do que sobre a cloroquina, com 0,8% do total para o tratamento que funciona e 0,17% para o ineficaz.

Menções Vacina

ArteInterrupções

Uma constante nas reuniões da CPI são as interrupções. Quem mais sofre com isso são os senadores com autoridade formal nas reuniões: o presidente e o relator. O senador Omar Aziz (PSD-AM), que comanda a comissão, não conseguiu terminar 2.517 frases. Ele não deixou barato: impediu a conclusão de 2.854 falas. Em seguida, vem Calheiros, que não pôde arrematar o pensamento por 2.297 vezes e foi responsável por 2.854 interrupções.

Quem interropeu mais e
quem foi mais interrompido?

Em termos relativos, a pessoa mais interrompida foi o advogado Alberto Zacharias Toron, que acompanhou a oitiva de seu cliente, o empresário Carlos Wizard. O defensor foi impedido de concluir 14 das 547 falas que teve, o que corresponde a um total de 2,56% dos casos. O levantamento considerou apenas pessoas com, no mínimo, 500 pronunciamentos.

Quando separadas por gênero, as interrupções de falas apresentam percentual de 0,52% para mulheres e de 0,66% para homens, incluindo todos os participantes – parlamentares e depoentes – da CPI. Embora as taxas identificadas indiquem que pessoas do sexo masculino foram mais impedidas de concluir o pensamento, é necessário destacar que todos os cargos de comando do colegiado são ocupados por homens, o que tende a aumentar a quantidade de interrupções que eles sofrem (e cometem).

Interrupções por sexo

A CPI contou com 117 homens, entre senadores e depoentes. Já o número de mulheres que discursaram no colegiado foi de 24, entre as quais 15 eram depoentes. Com 1,35% de suas falas comprometidas, Regina Célia Silva Oliveira, servidora que fiscalizou a compra não concretizada da vacina indiana Covaxin, no âmbito do Ministério da Saúde, foi a participante cujas declarações foram mais interrompidas. Em segundo lugar, consta a médica Nise Yamaguchi, grande defensora do uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. Ao todo, 1,29% dos seus pronunciamentos foram interceptados.

Mulheres mais interrompidas

Diversas pesquisas já demonstraram que o remédio é ineficaz, mas isso não foi suficiente para fazer a cientista mudar de opinião. Na CPI, Yamaguchi reafirmou sua posição e foi duramente criticada pelos parlamentares. O tratamento inclusive levantou a discussão sobre machismo.

Imagem HeinzeHeinze

Um senador que tem capturado a atenção do público – para o bem ou para o mal – durante a CPI é o congressista gaúcho Luis Carlos Heinze. Os pronunciamentos dele tendem a bater sempre nas mesmas teclas, o que acabou gerando um bingo com os principais termos.

O parlamentar é, por exemplo, quase o único membro da CPI a citar o médico Didier Raoult, primeiro defensor do tratamento comprovadamente ineficaz contra a Covid-19, com a administração de cloroquina. As menções do senador ao francês representam 57,9% do total de vezes em que o cientista foi citado por algum participante da CPI.

Heinze também adora se referir ao periódico médico Lancet. O senador, responsável por 52,4% das menções à publicação, utilizou o nome da revista para falar de um estudo que apontava uma suposta eficácia do tratamento precoce. Essa pesquisa foi posteriormente retratada.

O parlamentar também acabou sendo o responsável por imortalizar o nome da ex-atriz pornográfica e influenciadora digital Mia Khalifa nos anais do Congresso Nacional. Tudo começou quando o senador Luiz Carlos Heinze citou uma investigação promovida pelo jornal britânico The Guardian, que questionava um estudo sobre o uso da cloroquina no combate à Covid-19. Heinze é um defensor do remédio cuja ineficácia no tratamento contra a doença já foi comprovada diversas vezes.

A reportagem do Guardian apontava que a empresa Surgisphere, ao fornecer dados para o estudo questionado pelo jornal, utilizou uma imagem de Khalifa para retratar a suposta diretora de marketing. Heinze relembrou o assunto em sessão realizada em junho. “Pesquisadores começaram a investigar e descobriram que – pasmem, senhoras deputadas que estão aqui, senhores senadores! – a gerente de vendas da Surgisphere era uma atriz pornô”, disse. Essa atriz era Khalifa.

A partir de então, a internet pirou e o assunto cresceu a ponto de o senador Randolfe Rodrigues propor ironicamente a convocação da influenciadora, que inclusive chegou a mencionar o assunto em suas redes sociais. Apesar de não ter pronunciado o nome da atriz na frase que iniciou a celeuma, Heinze acabou fazendo-o posteriormente, ao citar a influenciadora nominalmente em três ocasiões (de um total de 19). Ele também proferiu a palavra “pornô” por 10 vezes, entre as 18 ocorrências do termo na CPI.

Imagem Flávio BolsonaroFlávio Bolsonaro

Outro senador que chama a atenção durante as sessões, mesmo sem ser um membro da comissão, é Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ). Ele é o filho do presidente e costuma comparecer às reuniões do colegiado quando a situação fica mais apertada para o seu pai.

O parlamentar participou de 14 das 65 sessões realizadas pela CPI da Pandemia. Ele estava presente na primeira reunião, realizada em 27 de abril. Na sua fala, Flávio criticou a escolha dos membros da comissão, especialmente a indicação de Calheiros para a relatoria. “No caso do senador Renan Calheiros, eu falo olhando nos seus olhos, senador, porque nada contra a sua pessoa, mas eu achava que tinha que ter um pouquinho mais de bom senso do senhor mesmo, de abrir mão da relatoria”, disse.

Esse seria o tom das aparições do filho 01 nas reuniões da CPI, sempre em defesa do governo do pai. As cinco primeiras sessões nas quais esteve presente foram de ex-membros do governo de Jair Bolsonaro. Em 12 de maio, ele participou do depoimento do secretário-executivo do Ministério das Comunicações Fabio Wajngarten.

Na semana seguinte, ele esteve presente nas oitivas do ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo (18 de maio) e do ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello (19 e 20 de maio).

Mayra Pinheiro, secretária do Ministério da Saúde e conhecida como Capitã Cloroquina, recebeu a convocação da CPI e foi outra integrante do governo federal que contou com a defesa do senador Flávio Bolsonaro.

O filho do presidente também partiu para o ataque ao acompanhar a sessão que ouviu o ex-governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel, um desafeto do seu pai, em 16 de junho.

Depois disso, as participações de Flávio foram sempre em oitivas ligadas ao escândalo da compra de vacinas superfaturadas. Ele esteve inclusive na sessão que ouviu o deputado federal Luis Miranda (DEM-DF), irmão do servidor do Ministério da Saúde que denunciou o caso.

As participações de Flávio foram minguando ao longo do tempo. Além da sessão deliberativa em abril, foram cinco em maio, três em junho, três em julho, uma em agosto, uma em setembro e nenhuma em outubro.

Em relação às palavras utilizadas, o senador não tem monopólios tão fortes quanto Heinze, mas também tem seus termos preferidos. O que mais chama atenção é “subornar”. Flávio é responsável por 71,4% das vezes em que o vocábulo foi utilizado. O parlamentar também foi a única pessoa a utilizar expressões que não têm necessariamente muito a ver com a pandemia de Covid-19, como “ditadorzinho”, “Lenin” e “bunker”.

Imagem RandolfeOposição x Governo

O maior embate da CPI ocorre entre os senadores que defendem o governo federal e aqueles que se declaram independentes – o que na prática significa que eles são de oposição, no contexto da comissão.

Há menos defensores de Jair Bolsonaro no colegiado, e eles são mais “quietos” também, se for possível dizer isso sobre algum participante. Em média, cada governista usou 76,6 mil palavras, na soma de todas as sessões analisadas. A média para os independentes é pouco mais do que o dobro, 152,8 mil.

Depoentes

Se a CPI fosse uma série, os senadores seriam o elenco fixo, e os depoentes seriam aqueles profissionais convidados, já famosos, que atuam em um ou dois episódios. No colegiado, as maiores participações especiais foram das pessoas que ocuparam cargos no Ministério da Saúde durante o governo de Jair Bolsonaro.

No primeiro lugar entre os depoentes, consta o atual ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, que proferiu o total de 44,5 mil palavras em duas participações diferentes. O seu antecessor, general Eduardo Pazuello, vem em segundo, com 39,7 mil vocábulos pronunciados. Já o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta (DEM) vem em terceiro, com 29,4 mil.

Palavras
Imagem Omar AzizPela Ordem

Faça o teste. Abra as notas de qualquer atividade da CPI da Covid e busque por “Pela ordem”. As respostas são contadas pelas dezenas. Ao todo, foram contabilizadas 1.648 ocorrências dessa expressão, em 65 sessões, o que representa uma média de 25 vezes a cada encontro do colegiado. O recorde aconteceu na primeira reunião, que contou com 75 “pela ordem”. O segundo lugar é da oitiva do empresário Carlos Wizard, ocasião em que o termo foi proferido 62 vezes.

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